JOKER #2 – A Física e a psicologia das cores

“Sou eu… Ou o mundo está ficando mais louco?”
-Arthur Fleck

Novamente aqui estamos nós, nos aprofundando na alma de Arthur Fleck. As apresentações foram devidamente feitas no primeiro post [JOKER – A Física e a literatura da trajetória].Dando mais um pequeno passo em nossa análise, hoje abordaremos uma ferramenta muito utilizada na arte e compõem parte fundamental da fotografia no cinema.

Hoje falaremos das cores.

Podemos dizer que as cores foram implementadas no cinema em 1894 no filme Annabelle Serpentine Dance um filme dos irmãos Lumière. O motivo do “podemos dizer” é que esse filme foi pintado a mão. Meio roubado, sim. Mas é o primeiro.
Entretanto, para os amantes da arte, o primeiro longa com captura em cores foi With our king and queen through india em 1912. Um documentário, tal qual, muitas partes foram perdidas. E a primeira obra cinematográfica foi The World, the Flesh and the Devil em 1914. Ambos produzidos pela Natural Color Kinematograph Company.

Desde então, isso revolucionou a forma que o cinema era feito e toda perspectiva de como essa arte era produzida. Existem filmes que se tornaram obras primas, muito se dá a fotografia do filme e como as cores foram de suma importância para transmitir a mensagem do diretor.

Claro, todas as cenas tem seu nível de complexidade. E por isso, as cores podem ter significados diferentes, sempre indo de encontro ao pensamento do diretor. As cores em si se tornam entidades vivas que se transformam, regressam e evoluem dentro da obra.

Mas o que são as cores?

Poderia dizer que as cores são uma consequência da pergunta “o que é luz?” e essa pergunta vem fritando a mente de grandes pensadores desde a antiguidade e a evolução da luz merece um post só pra ela. Mas pra não te deixar boiando nessa história toda, digamos que a grande dúvida era se a luz era feita de partículas ou ondas, a conclusão [spoiler] foi de a luz é remix das duas coisas.

Eu sei, eu sei… você está confuso

E não é pra menos. Mas pra sua sorte, vou tentar explicar o que são as cores, trilhando um caminho direto e mais claro. E claridade é uma palavra chave.

Nós, seres humanos, estamos acostumados com muitas coisas e pensamentos, isso nos leva a normalizar certos conceitos. E entenda normalizar como sendo estabelecer um consenso social a respeito de uma ideia e não questioná-la, senso comum. O que pode ser muito perigoso. Com isso em mente eu pergunto, de que cor são os M&Ms no prato abaixo?

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Se você respondeu que os M&Ms são vermelhos, verdes e azuis, não está totalmente errado, mas também não está totalmente correto. Veja novamente a imagem e veja o M&Ms…

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Os M&Ms verdes e azuis ficaram praticamente pretos, e agora fica muito mais difícil dizer quem é quem. Você pode estar irritado e dizendo que mudei a luz e por isso a cor mudou. E é exatamente esse o segredo das cores, elas são consequências da luz que colocamos sob um determinado objeto. As cores, nada mais são do que um subproduto da luz.

Mas, vamos um pouquinho mais fundo…

O que cientistas e pensadores conseguiram determinar foi algumas propriedades das estruturas que compõem os objetos e propriedades do funcionamento da luz. Em uma analogia, com uma visão bastante simplista, podemos dizer que as estruturas moleculares da matéria, se comportam como pequenos cristais e por isso poderíamos dizer que uma quantidade de luz é absorvida e enquanto outra é refletida(Guarda isso, vou voltar).

A luz, numa visão ondulatória tem propriedades que definem seu comportamento. Assim, a luz que é uma onda eletromagnética, tem as “mesmas propriedades” de qualquer outra onda. Como comprimento de onda, a frequência e a amplitude. A luz branca é a composição de todas as cores. Fisicamente, dizemos que a luz branca é composição de todo espectro eletromagnético visível ao nossos olhos.

Quando a luz branca incide sobre um objeto, todo espectro é absorvido e apenas uma fração é refletida (eu disse que voltaria…). Essa fração refletida chega ao nossos olhos e é interpretada por nosso cérebro como uma cor. No exemplo abaixo, a luz branca é decomposta por um prisma e assim, podemos notar sua composição. No momento em que o espectro entra em contato com a maçã, a fração vermelha é refletida e o restante é absorvida. Por isso a maçã é vermelhinha.

Para entender ainda melhor o que houve no caso dos M&Ms, proponho uma segunda imagem.

Notamos assim, que a fonte de luz pode variar como enxergamos os objetos. Claro, sei que você ficou com duas perguntas sem respostas e irei responde-las. A primeira é “sempre que colocamos uma outra fonte de luz os objetos ficarão pretos?”. Não, isso vai depender do objeto e do seu material, pois ele pode absorver totalmente o restante do espectro ou parcialmente e mudará seu aspecto. E a segunda é “todos os meus exemplos usam maçãs ?’’ Então… eu gosto de maçãs.

Além do visível, o espectro eletromagnético é composto de muitas outras faixas. vejamos:

Podemos ver que no espectro eletromagnético existe uma variação de frequências que conhecemos. As ondas de rádio e os raios-X, são bem frequentes no nosso dia a dia. O que os cientistas descobriram ao longo do tempo, é que existe uma relação direta entre frequência e energia. E como vemos na imagem e podemos deduzir, raios gama têm mais energia do que ondas de rádio. E isso acontece mesmo entre as cores, o que explica o motivo de azul ser a cor mais quente.

O filme Joker, é uma obra que ganhou um prestígio, muito merecido, mas que infelizmente não dá a todos a proporção dos méritos. Mas, aqui no Kong Science, sabemos que grandes saltos, em muitos casos, são dados em conjunto.
O motivo pelo qual estou dizendo isso, é que toda a mensagem transmitidas pelas cores no filme Joker, só é alcançada pelo trabalho de direção de Todd Phillips, a atuação primorosa de Joaquin Phoenix, mas principalmente a visão de Lawrence Sher, diretor de fotografia do filme. Joker, contou sua história também através das cores da forma que cada cor representa um símbolo. Esse artifício está presente em diversas obras como as citadas acima, mas com certeza vai de obras clássicas como Power Rangers e em a as sequências de Corpo fechado do diretor M. Night Shyamalan.

Em Joker, podemos notar um padrão que expressa os sentimentos de Arthur Fleck, que por mais caótico que possa parecer, segue uma regra sutil. Na cena de abertura do filme temos apresentado o modelo que se seguirá o filme todo.

Vemos que todo ambiente que rodeia Arthur está em tons azulados, esse tom pode representar toda a melancolia do nosso personagem. Vemos esse tom muito presente do lado de fora, pois mostra a fonte do sentimento para Arthur. Seguindo ,ainda do lado de fora, para a esquerda da cena, notamos o azul se transformar levemente em branco, cor que representará muito do normalidade caótica de Gotham. Olhando diretamente para Arthur, o vemos rodeado por uma luz laranja-amarelada, essa cor está muito presente nas cenas que o mostram frente ao conforto da transformação. A cena seguinte pode mostrar como Arthur se sente desconfortável com sua própria existência e sente a necessidade de se transformar, existir para si mesmo.

O filme continua, e nos deparamos com a seguinte cena…

…Vemos na primeira imagem, Arthur cercado por um entorno azulado, composto pela luz, o ambiente e lataria do ônibus. Entretanto, na cena seguinte apesar do seu meio está rodeado por símbolos melancólicos, nosso querido palhaço está sob uma luz amarela, mostrando seu espírito confortável moldado por uma brincadeira gentil, porém mal interpretada. Sabemos, como isso termina. E depois disso é só ladeira a baixo…

Ok… ele está subindo na imagem, mas você entendeu a ideia.

Logo a frente, temos uma cena icônica do filme. O encontro de Arthur e Murray. Olha que loucura do diretor…

Um tapa de símbolos melancólicos do Arthur. O filme nos entrega uma cena desconfortável e até mesmo desconexa em primeiro momento. Murray faz a abertura de seu programa, quando de repente ouvimos um “eu te amo, Murray” e lá está Arthur. Mas é claro, tudo está acontecendo na mente de do protagonista, veja os símbolos. A roupa do apresentador que combina com a de Arthur, uma combinação que mostra a dependência de ligação com aquele que é seu mestre. As luzes e as roupas dos integrantes da plateia, azuis, elementos cruciais para a mente de Arthur se tornar vivo em sua própria mente.

Outra cena que explodiu nossa mentes no fim do filme, envolve Sophie.

Sabemos que esse momento só aconteceu na mente de Arthur, mas nós tínhamos como saber?
Eu arriscaria dizer que sim. É apresentado um protagonista muito mais confiante, característica que destoa muito do que conhecemos. Porém, não só isso, veja os símbolos. Veja como a iluminação na cena é uma mescla de amarelo e azul. Isso nos mostra a busca de Arthur pela transformação, pelo conforto com sigo mesmo. Entretanto, assim como na cena Murray, a cena está banhada em azul, representação da melancolia do nosso herói.

Mas vamos ao Joker. Seguindo a regra dos símbolos, a luz amarela em variados tons pode representar o lado mais sombrio de Arthur e com isso, o Coringa. Isso reforça o caráter de transformação do personagem.

Essa cena em tom Laranja-amarelado, mostra um Arthur imerso em seus instintos. A transformação o leva a matar, e matar o leva ao conforto. Sabemos o que vai acontecer depois …

O filme se estende com inúmeros símbolos, sempre mantendo a regra. Mas, pulemos para o final. Quero mostrar mais uma cena.

Notem a transformação do personagem. Arthur estava presente em uma redoma de melancolia que beirava o ódio, simbolizada pelo tom escuro de azul. Mas sua presença no programa, indo ao lugar que escolheu para cometer suicídio, mostrava que suas ações estavam alinhadas ao que se esperava de um cidadão de Gotham, que beirava a insanidade e necessitava de cuidado. Arthur se entrega a normalidade do caos.

Arthur encontra sua razão de existir se tornando agente do caos. Veja o seu deslumbre pela confusão de cores, de símbolos, de sentimentos.

Essa história não poderia terminar de outra forma. A vida de Arthur foi um drama, ou como diria Joker, uma p*** de uma comédia. Vemos o nascimento de uma personalidade histórica e os símbolos regidos pelas cores estavam lá. A última cena do filme, mostra paredes brancas com um tom azul-acinzentado mostrando uma melancolia envelhecida, mas que sempre estará presente naqueles que vivem no Asilo Arkham. O plano sequência, nos dá a entender que uma simples piada pode ser mortal. O filme caminha para seus últimos segundos, mostrando Arthur saindo de sua sessão psiquiátrica de tons azuis melancólicos e um branco simbolizando o naturalmente caótico, para uma campo de conforto e confiança amarelado. Joker é assim, um personagem que caminhou pela corda bamba da sanidade e caiu. Emergindo um agente do caos.

A arte e a ciência, são formas que o ser humano encontrou para transmitir ou entender o caos do mundo, mas caminhamos todos pela mesma corda. Julgamentos sobre o certo e o errado são feitos a todo instante, e isso nos mostra a direção para qual andamos ou até mesmo a firmeza que nos seguramos na corda. Somos todos cidadãos de Gotham,metaforicamente, cegados por um incompreensível caos de cores. E assim, aguardando um salvador que não tenha medo de emergir das sombras, negar seus sentimentos e abraçar o medo, para assim buscar a paz de Gotham.

… Sim, eu estou falando do Batman

“Todas as cores concordam no escuro.”
-Francis Bacon

Kong scientist,
seguidor de horizontes, destruidor de muralhas aos fins de semana.

Referências

-nofilmschool.com/Joker-Cinematographer-color
-jokermovie.net/
-scielo.br/pdf/rbef/v41n3/1806-9126-RBEF-41-3-e20180223.pdf
-charlesurban.com/films_twenty.html
-estudodacor.wordpress.com/aspectos-fisicos/espectro-da-luz/espectro-2/

Imagens

danielammorais.com/content/images/2016/06/rainbow-bobsquare.gif
tenor.com/es/ver/dog-cachorro-surprise-omg-wait-gif-7809484
[a] Imagem de um parto de M&Ms sob luz branca
[b] Imagem de um parto de M&Ms sob luz vermelha
images.app.goo.gl/ZzjnBwxVu8Z5SbkUA