JOKER #1 – A Física e a literatura da trajetória

“Put on a happy face”
[Faça uma cara feliz]

Depois de todo alvoroço que o filme fez, com discussões, hipóteses, premiações e múltiplos entendimentos. Sinto que agora, em um oceano mais tranquilo, posso dar minha pequena contribuição. Uma visão dentre muitas outras que, porém, tenta uma lente diferente. Vocês sabem, né…muralhas do conhecimento e tals.

Com o intuito de abordar alguns dos temas e suas ligações, vou dividir essa nova visão em uma pequena série de quatro partes. Uma caminhada pela trajetória de algumas abordagens do conhecimento através do filme ‘Joker’, filme de 2019 por Todd Phillips.

Que início sério… Vou deixar um imagem do Coringa do Cesar Romero com seu maravilhoso bigode pra quebrar a tensão (Minha vó disse que ele era um “pitel” – Eu não sei o que isso significa).


[Olhe mais perto… sim… é um belíssimo bigode]

Mas antes de iniciar o aprofundamento a respeito do filme, um panorama de quem é o coringa. Arqui-inimigo do Batman, Joker, conhecido como ” Coringa”, “Joker, o palhaço” , “Príncipe Palhaço do Crime”, “Bobo da Corte do Genocídio” e para uma seguidora específica com problemas psicológicos que fariam a Giovanna derrubar o forninho (adoro um meme antigo) … “Pudinzinho” [Mas como ela tem uma história bastante profunda, merece um espaço só seu]

O Coringa, já foi descrito por muitos canais de cultura pop como ” o maior vilão de todos os tempos”, muito devido a nova leva de animações do Batman, da DC comics. E inclusive por muitos atos ele merece. Mesmo que por diversos autores, esse querido vilão já foi capaz de atirar em Barbara Gordon, filha do Comissário Jim Gordon, a deixando paraplégica. Não sendo suficiente, tortura seu pai fazendo que ele veja fotos dela em agonia. Ele já foi capaz de tirar a pele de um homem ainda vivo; Matou a plateia inteira de um talk show apenas para chamar a atenção do Batman; Matou um Robin, Jason Todd; Enganou o Superman para que ele matasse Lois Lane, e tirou a pele do próprio rosto para deixar de bilhete pro amado Morcegão e outros como muito bem mostrado na reportagem sobre o vilão no canal de notícias “Rolling Stones” em 2019. O que já é suficiente para dar razão ao Sherlock Holmes de ‎Robert Downey Jr que nos avisou…

Se existência precede a essência, só isso já é suficiente para entender o quão difícil é fazer jus a esse personagem. Fica ainda mais difícil quando levamos em consideração um histórico tão diverso de atuações que deram vida ao Coringa. Filmes, animações, jogos e principalmente as histórias em quadrinhos. Todos com suas peculiaridades e nuances.

Hoje, temos um histórico memorável de atuações que deram vida a esse personagem. Jack Nicholson, Heath Ledger, Jared Leto e Joaquin Phoenix, e isso somente no cinema live action. Ainda existe uma centenas de escritores, animadores, dubladores, criadores de games, envolvidos no desenvolvimento da essência que reconhecemos nas telas e solidificaram o caminho de Joaquin Phoenix nessa trajetória de sucesso.

Trajetória

Em física, usamos o termo trajetória para se referir aos caminhos que ligam as posições de um corpo no espaço com base em um referencial ( Opa…Opa… não foge não). Imagina que você está em um dia muito quente em Gotham [lendo esse maravilhoso blog] e resolve ir comprar um sorvete. A vários caminhos possíveis. Você pode ir pela rua de cima, pela de baixo, pela avenida, voando, pelo subsolo ou teletransporte. Onde você está e a sorveteria, são pontos fixos no espaço, mesmo existindo vários caminhos, trajetórias, que ligam você ao melhor sorvete de Gotham.

Mas a física não para aí, existindo regras que definem o caminho que você pode tomar, com base em observações conseguimos definir as regras que regem sua trajetória. A “magia” está no poder dedutivo que ganhamos. Agora podemos saber onde você vai estar ao longo do tempo que leva até o seu sorvete (que deve estar derretendo).


[Imagem de dor e sofrimento]

Mas por que estou dizendo isso? Por uma característica fundamental desse raciocínio e de todo campo da física, conhecido como mecânica clássica, pois ele permeia uma visão “determinística” da ciência. Assim, é bastante direta a consequência desse modo de ver o mundo, podemos entender o passado e prever o futuro (eu amo essa ciência). Esse raciocínio está em todas as ciências e na mente do ser humano. Da previsão do tempo, a produção de vacinas, o entendimento da evolução das espécies, etc.

Mas não é tão evidente as limitações de transpor o entendimento do comportamento de projéteis. Esse raciocínio dito dedutivo, está em muitas das ciências, como disse, mas também em nossa arte. Gosto de acreditar que a natureza é tão bela, plural e ao mesmo tempo tão única, que o ser humano encontrar formas diferentes de dizer a mesma coisa.

Esse mecanismo determinista está também em todas as artes. ” Mas Kong, a arte é tão subjetiva, como pode estar presa a um determinismo ?” Calma, isso não aprisiona a arte em uma caixinha “fria” de formas limitadas, só determina uma base sólida para se contar uma história. Por exemplo: A Jornada do herói.

Para quem não conhece, a jornada do herói ou monomito, é um conceito criado pelo antropólogo Joseph Campbell em 1949 e amplamente difundido no livro “O herói de mil faces”. Campbell defende que os grandes mitos, as jornadas dos chamados herói, seguem um padrão estrutural que se repete em diversas culturas. Ele foi atrás das culturas mais diversas no mundo todo e conseguiu sintetizar uma estrutura que hoje é utilizada na criação de diversas histórias. A estrutura passo a passo de Christopher Vogler no livro “Um Guia Prático para o Herói de Mil Faces” deixa mais acessível para entendermos.

  1. Mundo Comum – O mundo normal do herói antes da história começar.

  2. O Chamado da Aventura – Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.

  3. Reticência do Herói ou Recusa do Chamado – O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.

  4. Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural – O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.

  5. Cruzamento do Primeiro Portal – O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.

  6. Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia – O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.

  7. Aproximação – O herói tem êxitos durante as provações

  8. Provação difícil ou traumática – A maior crise da aventura, de vida ou morte.

  9. Recompensa – O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).

  10. O Caminho de Volta – O herói deve voltar para o mundo comum.

  11. Ressurreição do Herói – Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido.

  12. Regresso com o Elixir – O herói volta para casa com o “elixir”, e o usa para ajudar todos no mundo comum.

Essa é uma formulação bastante crua da história de Harry Potter, Luke Skywalker, Tony Stark, Avatar, Capitão América, Rei Leão, O Senhor dos Anéis e O Mágico de Oz … E outros não muito convencionais, mas que não fogem a regra, como Cinderela, Neo de Matrix, Hércules, Jesus, Buda, Batman e o nosso querido Coringa, porém, mais especificamente Arthur Fleck, o Coringa de Joaquin Phoenix.

A excelência desse filme foi não seguir a trajetória convencional da jornada do herói, mas nos surpreender com a colocação muito bem pensada de todos os elementos. Que foram cruciais para “transformar” Arthur Fleck e levá-lo a completa insanidade.Elementos, esses, apresentados diretamente ou sutilmente, mas que com certeza estavam lá.

Olhemos o filme atentamente …

Mundo Comum.

Conhecemos o mundo no nosso protagonista, um mundo sujo, injusto e nada amistoso …

O Chamado da Aventura
.

Arthur recebe o chamado, a missa incumbida por sua mãe …

Reticência do Herói e o Encontro com o mentor

Assim, Arthur encontra seu mentor e sente que seu laço agora é real… Sim, você está certo. Isso é coisa da cabeça dele…

Cruzamento do Primeiro Portal / Provações, aliados e inimigos

Arthur age por impulso, de início, e mata aqueles que em sua mente eram os reais vilões… (ele estava errado?)

Aproximação.

Ele sente sua música interior, sente que existe, sente algo…

Provação difícil ou traumática.

Seu mentor o traiu, fez chacota de seus sonhos…Arthur não consegue mais diferenciar real e o imaginário, a dor é desoladora…

Recompensa.

Mas Arthur segue a fórmula e sabe como buscar sua confiança e vai atrás de sua música …

O Caminho de Volta.

Mas ele sente que esse mundo não o pertence, e por isso escolhe voltar a sujeira de sua realidade…

Ressurreição do Herói.

Mas Arthur fica frente a frente a seu inimigo e percebe que o poder de sua confiança está em si mesmo. E depois de dar fim a tudo que ainda tinha significado para Arthur Fleck, ele finaliza seu último ato matando aquele que um dia foi seu mestre… Dando vida ao Coringa

Regresso com o Elixir.

Coringa agora entende seu lugar e tem o poder dentro de si. Ele se torna herói em sua mente e é aclamado ao voltar ao seu mundo.

Ter uma clareza dos elementos que formam o todo, pode tirar o brilho para algumas pessoas. Não para mim. E como saber o segredo do truque de mágica e ainda se maravilhar com a execução. Não se vê menos, se vê mais. E a execução de Joaquin Phoenix é realmente coisa que nem o Mister M revelaria.

A trajetória, e a conclusão, de Coringa não é uma regra. Antes de assumir que todos que passassem por situações similares teriam o mesmo desfecho, temos que ter muita cautela. A vida de Arthur Fleck é regida por abusos, violência e desamparo. similares teriam a mesma reação, temos que ter cautela. A diferença entre o pensamento determinista na natureza e na literatura, está no limite do fantástico. A natureza age de maneira indiferente ao nosso entendimento. Já a literatura é obra da mente humana, que em muitos dos casos tem o intuito de nos encantar.

A mensagem que a física me trouxe foi que é extremamente complexo analisar a trajetória quando temos visão de todo o sistema. Forças, resistências, caminhos, pesos, obstáculos, acelerações, todas as mais variáveis situações diferem da linear história diante de nossos olhos nas mais variadas telas. A literatura me ensina de diversas maneiras a ilimitada criatividade que temos ao criar nossas histórias. Independente de como olhamos a realidade, sempre podemos enxergar o fantástico

Kong scientist,
seguidor de horizontes, destruidor de muralhas aos fins de semana.

Referências

CAMPBELL, JOSEPH. O Herói de Mil Faces.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor
JOKER, Dir Todd Phillips. Warner Bros. Pictures, 2019.
https://observatoriodocinema.uol.com.br/filmes/2018/01/coringa-de-heath-ledger-e-eleito-maior-vilao-de-todos-os-tempos
https://rollingstone.uol.com.br/noticia/7-maiores-atrocidades-que-o-coringa-fez-nas-hqs-lista/

Imagens

Cesar Romero em  Batman: The Movie (1966)
Arlequina em  Batman and Harley Quinn (2017)
Robert Downey Jr. em Sherlock Holmes: A Game of Shadows (2011)
Joaquin Phoenix em Joker (2019)
Professor Braga em The Incredibles (2004)
Sorvete caindo no chão em https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcSB889Tqk_zhrcvWDBsJlz1YegD5qeIgqDvM5mTLL8EzbfReuvp

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